Carlos Marighella
Carlos Marighella, inimigo público número 1 da ditadura militar
Líder comunista, vítima de prisões e tortura, parlamentar, autor do mundialmente traduzido
Manual do Guerrilheiro Urbano, Carlos
Marighella
atuou nos principais acontecimentos políticos do Brasil entre 1930 e
1969, e foi considerado o inimigo número 1 da ditadura militar. Mas quem
foi esse homem, mulato baiano, poeta, sedutor, amante de samba, praia e
futebol, cujo nome foi por décadas impublicável? O documentário
Marighella,
dirigido por sua sobrinha Isa Grinspum Ferraz, traz uma construção
histórica e afetiva, sobre um homem que dedicou sua vida a pensar o
Brasil e transformá-lo através de sua ação.
História
Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de
1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos
haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a
escravidão.
De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais.
Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e
tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa
dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.
Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema
contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado,
prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos
universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de
Janeiro.
Em 1o de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou,
durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia de Filinto Müller.
Permaneceu encarcerado por um ano e, quando solto pela “macedada” – nome
da medida que libertou os presos políticos sem condenação — deixou o
exemplo de uma tenacidade impressionante.
Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de
dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente
atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de
Getúlio Vargas.
Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma
brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas
se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Na CPI que
investigaria os crimes do Estado Novo o médico Dr. Nilo Rodrigues
deporia que, com referência a Marighella, nunca vira tamanha resistência
a maus tratos nem tanta bravura.
Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo
seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao
trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.
Anistiado em abril de 1945, participou do processo de
redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na
legalidade. Deposto o ditador Vargas e convocadas eleições gerais, foi
eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria
apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas,
proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que
tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando
as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente
penetração imperialista no país.
Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou
contra o comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à
clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas
décadas, até seu assassinato.
Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria
parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio
estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a
desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella
voltaria suas reflexões em direção do problema agrário, redigindo, em
1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro
de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Nesta
fase visitaria a China Popular e a União Soviética, e anos depois,
conheceria Cuba. Em suas viagens pôde examinar de perto as experiências
revolucionárias vitoriosas daqueles países.
Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes
do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou
os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura
militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a
queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à
prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção
política, da certeza (…) de que a liberdade não se defende senão
resistindo”.
Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez
de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava
desde 1o de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de
solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua
libertação imediata. Desse momento em diante, intensificou o combate à
ditadura utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a
consolidação de um regime ilegal e ilegítimo. Mas, mantendo o país sob
terror policial, o governo sufocou os sindicatos e suspendeu as
garantias constitucionais dos cidadãos, enquanto estrangulava o
parlamento. Na ocasião, Carlos Marighella aprofundou as divergências com
o Partido Comunista, criticando seu imobilismo.
Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu
seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar
revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras
do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia,
imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme
suas próprias palavras, fundou a ALN – Ação Libertadora Nacional para,
de armas em punho, enfrentar a ditadura.
O endurecimento do regime militar, a partir do final de 1968,
culminou numa repressão sem precedentes. Marighella passou a ser
apontado como Inimigo Público Número Um, transformando-se em alvo de uma
caçada que envolveu, a nível nacional, toda a estrutura da polícia
política.
Na noite de 4 de novembro de 1969 – há exatos 30 anos — surpreendido
por uma emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista, Carlos
Marighella tombou varado pelas balas dos agentes do DOPS sob a chefia do
delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Resumo biográfico
1911 – No dia 5 de dezembro, Carlos Marighella nasce
na Rua do Desterro número 9, na cidade de São Salvador, Estado da
Bahia. Seus pais são o casal Maria Rita do Nascimento, negra e filha de
escravos, e o imigrante italiano, o operário Augusto Marighella. Carlos
teve sete irmãos e irmãs.
1929 – Marighella começa a cursar engenharia civil
na antiga Escola Politécnica da Bahia, depois de haver estudado no
Ginásio da Bahia, hoje Colégio Central. Numa e noutra escola, destaca-se
como aluno, pela alegria e criatividade. São famosas suas diversas
provas em versos.
1932 – Ingressa na Juventude Comunista. O Partido
Comunista havia sido criado em 1922. Com a revolução de 30 uma grande
efervescência política varria o Brasil. Marighella participa de
manifestações contra o regime autoritário e o interventor Juracy
Magalhães. Inconformado com versos de Marighella que o ridicularizavam,
Juracy manda prendê-lo e espancá-lo.
1936 – Abandona o curso de engenharia e vai para São
Paulo a mando da direção, reorganizar o Partido Comunista, que havia
sido gravemente reprimido após o levange de 1935. É, porém, novamente
preso e torturado durante 23 dias pela Polícia Especial de Felinto
Muller.
1937 – Marighella é libertado pela anistia assinada
pelo ministro Macedo Soares e, quatro meses depois, Getúlio dá o golpe e
instaura o Estado Novo. Na clandestinidade, Marighella é encarregado da
difícil tarefa de combater as tendências internas dissidentes da linha
oficial do PCB em São Paulo.
1939 – Preso pela terceira vez, é confinado em
Fernando de Noronha. Na cadeia, os revolucionários presos organizam uma
universidade popular e Marighella dá aulas de matemática e filosofia.
1942 – Os presos políticos vão para a Ilha Grande,
no litoral do Rio de Janeiro, porque Fernando de Noronha passa a ser
usada como base de apoio das operações militares dos aliados no
Atlântico Sul.
1943 – Na Conferência da Mantiqueira, Marighella,
mesmo preso, é eleito para o Comitê Central. O Partido Comunista adota
linha de apoio ao governo Vargas em razão da entrada do Brasil na
guerra, posição de que ele discorda, embora a cumpra, por dever de
militância.
1945 – Anistia, em abril, devolve à liberdade os
presos políticos. Com a vitória das forças antifascistas, o PCB vai à
legalidade e participa da eleição para a Constituinte. Marighella é
eleito como um dos deputados constituintes mais votados da bancada..
1946 – Apesar do apoio de Prestes, o general Dutra,
eleito Presidente da República, desencadeia repressão aos comunistas.
Marighella participa ativamente da Constituinte com um dos redatores do
organismo parlamentar. Conhece Clara Charf.
1947 -Ainda no primeiro semestre é fechada a União
da Juventude Comunista. Depois, é o próprio Partido que é posto na
ilegalidade. Marighela coordena a edição da revista teórica do PCB,
Problemas, e vive um relacionamento com dona Elza Sento Sé, que resulta no nascimento, em maio de 1948, de seu filho Carlos.
1948 – No início do ano são cassados os mandatos dos
parlamentares comunistas. Marighella volta à clandestinidade. Data
desse ano seu romance com Clara Charf, sua companheira até o fim da
vida.
1949/1954 – Em São Paulo, Marighella cuida da ação sindical do PCB. Sob sua direção o PC se vincula aos operários, participa da campanha
O Petróleo é nosso
e organiza a greve geral conhecida como “dos 100 mil” em 1953.
Considerado esquerdista pela direção do Partido, é mandado em viagem à
China. Lá é internado em razão de uma pneumonia. Depois, vai à União
Soviética e volta ao Brasil em 1954.
1955 – A morte de Getúlio Vargas e o início do
governo de Juscelino Kubistchek permitem que os comunistas, embora na
ilegalidade, atuem de modo mais visível.
1956/1959 – O XX Congresso do PC da União Soviética
inicia a desestalinização. O PCB adota a linha da “coexistência
pacífica” pregada pela União Soviética. A vitória da Revolução Cubana,
porém, contraria frontalmente as posições do movimento comunista
internacional.
1960/1964 – A renúncia de Jânio gera uma crise
política. Jango toma posse e Marighella passa a divergir da linha
oficial do PC, principalmente de sua política de moderação e
subordinação à burguesia. Em 1962, divisão do PC dá origem ao Partido
Comunista do Brasil – PC do B.
1964 – Com o golpe de abril, instaura-se a ditadura
militar. Perseguido pela polícia, Marighella entra num cinema do bairro
da Tijuca, no Rio de Janeiro, e lá resiste aos policiais até ser
diversas vezes baleado, espancado e finalmente preso. Sua resistência
transformou sua prisão em um ato político que teve repercussão nacional.
É solto depois de 80 dias, depois de um habeas corpus pedido pelo
advogado Sobral Pinto.
1965 – Escreve e publica o livro
Por que resisti à prisão,
em que aponta sua opção por organizar a resistência dos trabalhadores
brasileiros contra a ditadura e pela libertação nacional e o socialismo.
1966 – Publica
A Crise Brasileira, onde
aprofunda suas posições críticas à linha do PCB, prega a adoção da luta
armada contra a ditadura, fundada na aliança dos operários com os
camponeses.
1967 – Na Conferência Estadual de São Paulo as
idéias de Marighella saem vitoriosas por ampla maioria – 33 a 3 -,
apesar da participação pessoal e contrária de Luiz Carlos Prestes. Vendo
que a derrota no VI Congresso era iminente, Prestes inicia um processo
de intervenções nos Estados, para impedir a participação de delegados
ligados à corrente de esquerda. Marighella viaja a Cuba para participar
da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade-OLAS. O
PCB envia telegrama desautorizando sua participação e ameaçando-o de
expulsão. Disso resulta uma carta dele rompendo com o Comitê Central do
PCB e afirmando que ninguém precisa pedir licença para praticar atos
revolucionários. Como represália, é expulso do Partido Comunista.
Retorna ao Brasil e funda a Ação Libertadora Nacional-ALN e dá início à
luta armada contra a ditadura militar.
1968 – Marighella participa diretamente de diversas
ações armadas recuperando fundos para a construção da ALN. No primeiro
de maio, em São Paulo, os operários tomam o palanque de assalto,
expulsam o governador Sodré e realizam comemorações combativas do dia
internacional dos trabalhadores. O Movimento estudantil toma conta das
ruas em manifestações contra a ditadura que chegaram a mobilizar 100 mil
pessoas. Em outubro, porém, o Congresso da UNE é descoberto pela
polícia e os estudantes sofrem grave derrota. Também no final do ano,
torna-se conhecido o fato de que Marighella comandava parte das ações
guerrilheiras.
1969 – No início do ano, a descoberta de planos da
Vanguarda Popular Revolucionária – VPR pela polícia antecipa a saída do
capitão Carlos Lamarca de um quartel do exército em Osasco, levando um
caminhão carregado com armamento para a guerrilha. Em setembro o
embaixador norte-americano é feito prisioneiro por um destacamento
unificado com integrantes da ALN e do MR-8 e trocado por quinze presos
políticos. No dia 4 de novembro, às oito horas da noite, Carlos
Marighella caiu numa emboscada armada pelos inimigos do povo brasileiro
em frente ao número 800 da alameda Casa Branca, em São Paulo, e foi
assassinado. Sua organização, a ALN sobreviveu até 1974.
Fonte:Correiodobrasil.com.br